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Terça-feira, Novembro 14, 2006
A gente percebe que virou uma dona de casa quando chega em casa, feliz, com uma tábua de passar roupa debaixo do braço. Vai entender...
21:38| Comments:
Quarta-feira, Julho 26, 2006
- Glória, você me arruma uma aspirina?
- Por que é que você me pede tanta aspirina? Não estou reclamando, mas isso custa dinheiro.
- É para eu não me doer.
- Como é que é? Hein? Você se dói?
- Eu me dôo o tempo todo.
- Aonde?
- Dentro. Não sei explicar.
Diálogo entre Glória e Macabéa, em A hora da estrela, de Clarice Lispector
23:17| Comments:
Segunda-feira, Junho 12, 2006
Chove muito nesta madrugada.
Sempre gostei de chuva forte. Ser pega desprevenida, no meio da rua, no fim de uma tarde de verão.
Ficar olhando os pingos baterem forte no gramado.
Sentir o cheiro de terra molhada.
Perceber como tudo fica mais nítido, como as cores ficam mais intensas depois de uma boa pancada.
Mas, de um tempo pra cá, não consigo mais dormir tranqüila ao som da chuva.
Deve ser culpa da idade e dessa nostalgia da infância que sinto cada vez mais.
É começar a chover no escuro e me vêm à memória resquícios da minha formação católica.
Uma música que meu pai costumava cantar, com voz forte, e que sempre me fazia chorar...
Para mim a chuva no telhado
É cantiga de ninar
Mas o pobre meu irmão
Para ele a chuva fria
Vai entrando em seu barraco
E faz lama pelo chão
Para mim o vento que assobia
É noturna melodia
Mas o pobre meu irmão
Ouve o vento angustiado
Pois o vento, esse malvado
Lhe desmancha o barracão
Como posso
Ter sono sossegado
Se no dia que passou
Os meus braços eu cruzei?
Como posso ser feliz
Se ao pobre meu irmão
Eu fechei meu coração
Meu amor eu recusei?
21:05| Comments:
"Não, não devia pedir mais vida. Por enquanto era perigoso. Ajoelhou-se trêmula junto da cama pois era assim que se rezava e disse baixo, severo e triste, gaguejando sua prece com um pouco de pudor: alivia a minha alma, faze com que eu sinta que Tua mão está dada à minha, faze com que eu sinta que a morte não existe porque na verdade já estamos na eternidade, faze com que eu sinta que amar é não morrer, que a entrega de si mesmo não significa a morte, faze com que eu sinta uma alegria modesta e diária, faze com que eu não Te indague demais, porque a resposta seria tão misteriosa quanto a pergunta, faze com que me lembre de que também não há explicação porque um filho quer o beijo de sua mãe e no entanto ele quer e no entanto o beijo é perfeito, faze com que eu receba o mundo sem receio, pois para esse mundo incompreensível eu fui criada e eu mesma também incompreensível, então é que há uma conexão entre esse mistério do mundo e o nosso, mas essa conexão não é clara para nós enquanto quisermos entendê-la, abençoa-me para que eu viva com alegria o pão que eu como, o sono que durmo, faze com que eu tenha caridade por mim mesma pois senão não poderei sentir que Deus me amou, faze com que eu perca o pudor de desejar que na hora de minha morte haja uma mão humana amada para apertar a minha, amém."
De Clarice Lispector em Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres
00:06| Comments:
Quinta-feira, Agosto 11, 2005
Finalmente assisti à "Paixão Segundo G.H." Ainda não dá para dizer o que eu achei. É uma angústia! Gostei, mas não tenho vontade de falar. Quero pedir um táxi, mas não consigo abrir a boca. É como se alguma coisa importante pudesse escapar e eu fosse perder a chance de sentir, pensar ou entender (post de quarta-feira à noite)
19:51| Comments:
Ainda não consegui ouvir nenhuma música desde então. Mas ando com uma vontade louca de voltar a ler Pedro Juan Gutiérrez.
19:47| Comments:
Segunda-feira, Agosto 08, 2005
Morre Ibrahim Ferrer. Meu mundo fica um pouco mais triste. Pela primeira vez tenho a sensação de alívio por ter assistido ao show de alguém que se foi (post que deveria ter entrado sábado).
16:36| Comments:
Quinta-feira, Agosto 04, 2005
Estava saindo do Museu da República quando uma frase me chamou a atenção. Uma menina, chorando, falava com alguém no celular e perguntava como ia poder trabalhar com o rosto todo sujo de lágrimas. Fiquei tão impressionada! Nunca pensei que lágrimas sujassem. Ou que alguém pudesse considerar assim...
18:23| Comments:
Segunda-feira, Fevereiro 21, 2005
Porque não sei beber aos goles. Encho o copo até a boca e viro de uma vez. Por isso, às vezes me atrapalho, engasgo, me afogo, desespero. Não sei fazer de outro jeito.
13:47| Comments:
Quinta-feira, Julho 29, 2004
Quando se passa um tempo fazendo jornalismo policial, alternam-se fases. As que você começa a banalizar a violência e trata pessoas com nome, sobrenome, família e uma história como coisas; outras em que você passa a acreditar que certos crimes só acontecem com quem fez por merecer; ou a da paranóia, na qual você anda pelas ruas olhando para todos os lados, vê sinal de perigo em tudo e acha que a qualquer momento vai viver ou presenciar uma dessas cenas violentas que lotam as delegacias. Em qualquer das hipóteses, este contato mais próximo com o que se convencionou chamar submundo, deixa uma nuvenzinha negra em cima da cabeça. Pelo menos comigo, sempre foi assim.
Hoje nem é preciso ir à delegacia. FerVil morreu quando fazia o caminho do trabalho para casa. Não era propriamente um amigo, nunca ouvi sua teoria sobre o universo de Gaia, mas tinha rosto, sorriso, voz, projetos, amigos, vida para mim. Não me espanta não ter lido nada sobre a morte de seu primo, assassinado há um mês no Leblon. Se saiu no jornal, foi só mais um nome sem história, como tantos outros publicados todos os dias.
Também não se trata mais de paranóia. As coisas estão acontecendo sim, o tempo todo, em qualquer lugar e podem sim ser com você ou uma pessoa que você ama. A gente finge que não percebe e vai vivendo. Acorda todo dia, entra no ônibus ou no carro e vai trabalhar, como se toda essa violência não estivesse rondando a nossa rotina. Mas ontem o aposentando Josias Tavares foi morto quando brincava com os netos numa praça da Barra; e Rosemary Reis Adadi está em estado grave no hospital porque correu para a Vieira Souto tentando fugir de um assalto. Acabou atropelada e sem a bolsa.
Mundinho de merda este em que a gente vive!
09:18| Comments:
Terça-feira, Junho 08, 2004
O dia está lindo lá fora. Fico angustiada. Não caibo dentro deste escritório. Sigo recitando o mantra: "hoje (apesar de terça) é quinta-feira; hoje é quinta-feira..."
11:34| Comments:
Sábado, Maio 08, 2004
Hoje é aniversário do meu pai. Para perder a vergonha de vez, aí vai um texto que escrevi para/sobre ele faz um tempo.
Meu pai
Sentada no restaurante, cotovelos apoiados na mesa, mãos cruzadas sobre o prato, lembrei do tom solene e da voz impostada com que meu pai costumava rezar antes das refeições.
"Obrigado, Senhor, por este alimento. Abençoai-o e não permitais que ele falte nos lares pobres".
Os olhos encheram d'água e repeti a oração. Com fé.
Senti ternura. Tem sido sempre assim quando penso em meu pai.
Perdemos o hábito. Este e muitos outros. Como o da família reunida ao redor da mesa para as refeições de domingo.
O de que mais me lembro é de quando meu pai saía à noite para as reuniões da Igreja. A gente ia deitar, as meninas dormiam e eu ficava em silêncio. Às vezes acho que vem daí a minha insônia - embora me lembre dela quando ainda era criança. De certa forma, ficava esperando ele voltar. Mas quieta. Ouvia o carro, o latido dos cachorros, o barulho da porta de correr. Ele entrava e vinha até o corredor apagar a luz externa.
Parava na porta, geralmente aberta, olhava na penumbra e dizia baixinho:
"Deus abençoe vocês, minhas filhas" e ia dormir.
Eu continuava quieta e depois dormia também. Às vezes dizia oi. Mas só depois de ele falar. Meio sem graça, ele perguntava: "Acordada até esta hora? Está tudo bem? Dorme com Deus."
Hoje ainda tenho insônia. Insônia e pai. Mas ele não vem mais à porta do quarto pedir proteção pra mim.
Esta noite queria que ele viesse.
(21.03.02)
00:55| Comments:
Desumanizados
Como todo mundo, fiquei horrorizada, envergonhada, descrente com as fotos de tortura a presos no Iraque.
Não que elas tragam novidade. Toda 'situação de guerra' é assim.
Não dá pra pedir a um homem (soldado) para matar outro (soldado ou não) e depois esperar que ele tenha algum respeito por ser humano.
00:47| Comments:
Quinta-feira, Abril 01, 2004
Não é que eu queira usar este espaço pra ficar reclamando das coisas, mas ontem duas jornalistas deletaram e-mails meus sem ao menos ler. Um outro respondeu, gentil, dizendo que tinha recebido a mensagem e agradecendo. Não disse que gostou da pauta, nem que vai publicar.
As pessoas só precisam ser educadas para me fazer sorrir. Nem é tão difícil assim, é?
00:18| Comments:
Quarta-feira, Março 10, 2004
Às vezes quero tanto uma coisa que sinto, imagino, visualizo em todos os detalhes. É tanta intensidade que não faço nada para que aconteça.
(02.02.04)
09:16| Comments:
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Se fosse para explicar, ela seria algodão. Às vezes fofo, inflado. Outras seco, esturricado pelo calor. De vez em quando, encharcado.
De tempos em tempos, se sentia oca. Nestes momentos era algodão doce.
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